Portas fechadas, visitas canceladas, menos negócios. Esta é a primeira parte de um artigo em que abordamos o impacto do Covid-19 na Mediação Imobiliária. 


À medida que os dias passam e os casos de infetados com o novo coronavírus se multiplicam, são mais as histórias de negócios adiados e visitas canceladas. Quatro Agentes Imobiliários, com agências do Minho ao Algarve, falam sobre o impacto do Covid-19 na Mediação Imobiliária. 

Na sexta-feira, 13 de março, quando estes contactos foram feitos, Portugal estava ainda a digerir as medidas anunciadas na véspera pelo Governo, mas nas empresas de Mediação Imobiliária já se sentiam os primeiros efeitos da pandemia. 

Em Barcelos, Ricardo Macedo, da Trop Imobiliária, tomava as primeiras medidas de proteção e já não tinha aberto as portas da agência nesse dia. “Vou trabalhar de casa, responder a e-mails e telefonemas. Estou operacional à distância”, revelou, adiantando que para já vai manter as escrituras agendadas.

No seu caso, o maior receio é o risco de contágio, sobretudo à mulher, grávida. “Não posso correr riscos”, admite, lembrando que é impossível saber quem pode ou não estar infetado.

Nesse dia notava já um abrandamento na marcação de visitas e, já durante o fim de semana, informou-nos que tinha recebido o primeiro cancelamento, “evocando concretamente o plano de contingência do Covid-19”.

Até aquele momento, Ricardo Macedo não tinha ainda sentido “um impacto no negócio em concreto”. Ainda assim, admitiu que esperava sentir alguma quebra nas vendas e sublinhou a incerteza quanto à duração da pandemia. 

“Agora as pessoas estão com a cabeça em coisas de primeira necessidade, não na compra de uma casa, que é algo que podem adiar. Parece-me que um dos motivos para a procura ter abrandado, se prende com o facto de as pessoas viverem momentos de incerteza no seus empregos, pelos riscos desta situação para as suas entidades empregadoras, num concelho predominantemente têxtil onde muitas empresas deste setor já estavam a atravessar uma crise o que esta pandemia veio agravar”, contou. 

Covid-19 cancela visitas

José Ruivo, da HomeLusa, na Figueira da Foz, Coimbra e Cantanhede falava de “uma situação grave”, dando como exemplo “clientes da Suíça e Luxemburgo que iam viajar para ver imóveis, mas que desmarcaram a viagem” e de um outro caso de um cliente dos EUA, já com uma escritura marcada, mas com dificuldades em viajar.

“É uma situação de muita preocupação. Um cliente que tinha feito uma proposta, já aceite pelo proprietário, acabou de cancelar. Vai esperar para ver o que acontece”, contou, admitindo também que tem “menos pedidos e aqueles que estavam bem encaminhados estão a ser travados pelos compradores”.

No primeiro contacto feito ponderava já fechar temporariamente as portas das agências. Ao fim do dia de sexta-feira confirmou o cenário já antecipado: “Decidimos por unanimidade fechar as agências e trabalhar de casa. Todos perceberam e concordaram e a decisão foi unânime. Todos estão motivados!”, revelou.

Os planos deste Agente Imobiliário passam por “fazer os serviços mínimos” até que tudo possa voltar à normalidade: “Vamos cancelar as visitas aos imóveis, para não colocar nenhum cliente em risco e manter as escrituras já marcadas”.

Mas o impacto do Covid-19 já se fazia sentir no dia-dia, com alterações em hábitos até aqui normais: “Temos tido todos os cuidados. Colocámos um aviso à porta fazendo saber que suspendemos os contactos físicos, como apertos de mão e beijinhos. Além de reforçarmos todas as instruções no sentido da higiene individual, como lavar as mãos ou desinfetar”.

A incerteza quanto ao regresso à normalidade

“O pior é a incerteza, porque não sabemos quando é que as coisas voltam ao normal”. O desabafo de Beatriz Infante, da Renovaluga, em Almada, será certamente partilhado por todos os Agentes Imobiliários que, ao longo do mês de março, viram a situação a sofrer um agravamento.

O Covid-19 “está a ter um impacto significativo”, admitiu, revelando que “as visitas reduziram ligeiramente, sobretudo nos últimos dois dias”.

Antes disso, já o relacionamento com os clientes tinha sido objeto de alguns cuidados, procurando evitar eventuais contágios. “As medidas de contacto mudaram, já não há apertos de mão. Não há um contacto tão próximo com o cliente, mas eles entendem”, contou. 

Evitar o contacto físico é uma forma de proteger a saúde de todos e uma medida fundamental numa atividade em que as interações sociais com desconhecidos são essenciais: “Estamos numa profissão em que contactamos com muita gente e temos de nos proteger e de proteger os que temos em casa”, sublinhou.

O impacto do Covid-19 era já notório com “algumas desmarcações” e muitas cautelas por parte de alguns clientes.

Beatriz Infante deu como exemplo o caso de um casal de idosos, já na casa dos 70, em que ambos têm problemas de saúde: “Era um processo que estava a correr muito bem. A casa deles já tinha sido vendida e estávamos agora na fase de procurar uma nova, mas suspendemos a visita às casas, porque eles não se sentem confortáveis a fazê-las nesta altura”.  

Em relação aos próximos tempos, os planos desta Agente Imobiliária não diferem muito dos que são feitos pelos seus colegas em vários pontos do país: “Na próxima semana vou ter duas escrituras. Tirando isso, vamos trabalhar de casa, fechar as instalações presenciais e só sair para o indispensável, ponderando o uso de máscara e luvas”.  

Viagens difíceis e escrituras adiadas

Fábio Farrobinha, da Domus Capri, em Faro, tem sentido mais dificuldades devido à indisponibilidade dos clientes para deslocações. Numa agência que trabalha com clientes nacionais e estrangeiros, o Covid-19 está já a ter algum impacto.

“Sentimos alguma diminuição nos leads”, admitiu, contando um caso concreto em que a escritura terá de ser feita noutra altura: “Tinha uma escritura marcada, mas o cliente, que é português mas reside em Londres, não se quis deslocar e teve de ficar suspensa”.

“Noto sobretudo que as pessoas não se querem deslocar”, disse, revelando que está também a tomar medidas para reduzir os contactos pessoais: “Trabalhamos à porta fechada, ou seja, estamos cá, mas só abrimos a porta para situações urgentes ou previamente combinadas. Temos evitado os apertos de mão, mas não de uma forma radical”.

A mudança de hábitos devido ao Covid-19 não se limitou ao contacto com os clientes, mas também se estendeu aos fornecedores: “A empresa que nos faz a contabilidade, por exemplo, reduziu o atendimento presencial para uma hora de manhã e outra à tarde”.

Na sexta-feira, dia 13, o trabalho passava sobretudo por reconfirmar as visitas marcadas, uma vez que previam que as medidas anunciadas no dia anterior tivessem algum impacto. 

Na sua opinião, a incerteza e a mudança de hábitos são os principais problemas desta fase, mas, no fundo, tudo se resume a “ evitar diariamente males maiores”.

Toda a informação sobre o Covid-19 

Nesta fase, é importante para um Agente Imobiliário estar bem informado não só sobre o evoluir da situação, mas também sobre as medidas a tomar para travar a propagação do novo coronavírus.

O site da Direção-Geral da Saúde fornece informações fidedignas e através de uma ligação própria responde a várias dúvidas e disponibiliza guias e listas de procedimentos para vários tipos de situações.